domingo, 17 de abril de 2016

Quando “parto” não é ida, é chegada!


Um caderno com algumas folhas vazias, lápis e uma borracha: minhas primeiras ferramentas para o início de uma construção empírica. Poderia ser mais simples e fácil relatar tais experiências visto que somente nós, mulheres, possuímos o privilégio do TER e do SER: temos um casulo que abriga o novo ser e somos o portal desta recente vida.

Entretanto, as palavras iniciam uma brincadeira de esconde-esconde comigo. Sinto-as por perto rodeando-me, provocando-me. Ouço os balbúcios. Tantos, atropelados, rebeldes, ininteligíveis. Só preciso de um tempo para organizá-los.

Resgatar com exatidão fatos ocorridos há mais de trinta anos requer certo esforço uma vez que o acervo é grande e nossa memória tem critérios seletivos para armazenar nossas histórias. Contudo, eu confio nesse baú de imagens e de palavras. As recordações lá contidas estão protegidas por uma substância mágica e verdadeira que não se pode adulterar: o amor materno.

Já me disseram que sou uma “mãezona”.  Talvez essa definição condense um misto de elogio e (quem sabe!) crítica ao mesmo tempo,  por tratar com carinho as pessoas, por me importar com elas, por protegê-las. Realmente, há situações em que o instinto maternal fala mais alto e determina as ações voltadas para aqueles que, supostamente,  precisam de mim. Por isso fica difícil afirmar quantas vezes fiz  papel de mãe nesta vida, mas sei, certamente, o que representa a expressão “dar à luz”.  Por duas vezes vivenciei a mais incrível e singular experiência que uma mulher conhece na sua trajetória feminina.

Danilo e Patrícia: o maior e melhor presente divino que possibilitou meu crescimento como ser humano.  E vou além: Deus, na sua sabedoria e generosidade, trouxe-me anos depois o complemento dessa evolução: os netos: Gabriel e Johnny,  protagonistas de tantas histórias de amor, aventura, humor, ação, suspense e mistério que, aos poucos, farão parte destes contextos maternais.

Embora seja clichê a expressão “túnel do tempo”, é justamente nela que pretendo mergulhar para  trazer à tona os episódios de 1984 e 1986, datas extremamente relevantes que marcaram o nascimento dos meus filhos.

As duas gravidezes não trouxeram problemas, tudo ocorreu conforme manda o protocolo: acompanhamento mensal no pré-natal, cuidados com a alimentação, sensibilidade aguçada, muita sonolência à noite, azia, falta de ar nas subidas e os inevitáveis quilinhos a mais (20 kg a mais na gravidez do Danilo e 22 na gravidez da Patrícia). Nunca senti enjoos nem vontades estranhas.

Sempre fui irrequieta, meio ligada nos 220 volts, mesmo grávida. Andava de bicicleta, subia em muros e na laje da casa, ia para a casa da vizinha pelo muro, fazia caminhadas... Aquele barrigão nunca me impediu de fazer as atividades cotidianas,  até mesmo pintar a casa duas semana antes do nascimento do Danilo..  Lógico que não me faltavam advertências verbais da minha mãe, irmãs, sogra e dos demais parentes. Eu sabia que estavam preocupadas com o meu bem estar e do bebê, porém não via necessidade de uma mudança tão brusca. Como passar de dinâmica à estática de uma hora para outra?

O que mais me incomodava mesmo, nessa época, eram as histórias referentes à hora do parto. Nossa! As fontes eram diversas e em quase todas elas haviam enredos de dores insuportáveis, agonia sem fim, lágrimas, lamentos, promessas, etc.  Aquilo não me ajudava nem um pouco. Ao contrário, eu ficava imaginando o quanto iria sofrer na hora do parto e, na sequência dos dias,  o momento crucial se aproximava e minha expectativa crescia junto.

Em uma bela madrugada de sono profundo, antecedendo o dia das mães (12/05/1984) fui surpreendida pelo rompimento da bolsa e naquele momento compreendi que chegara a hora da ida ao hospital,  pois o trabalho de parto se iniciara. Entretanto o Danilo não tinha pressa de nascer, fiquei muitas horas no quarto,  acompanhada de outras mães na mesma situação. Como elas gritavam, choravam, sofriam e se lamentavam!! Aquilo foi horrível porque eu estava sem dores ainda tinha que testemunhar todo aquele alvoroço das outras. Eu pensava “Até eu chegar nesse estágio vai demorar!” Foram mais de doze horas de espera. O lindinho resolveu nascer à noitinha: às 18:30 quando, mais uma vez, o médico entrou no quarto para examinar aquelas mães  desesperadas e me viu lá quieta no aguardo. Fez o exame em mim e pediu à enfermeira que me levasse rapidamente para a sala de parto porque o bebê já estava nascendo. Eu estranhei, estava sentindo as contrações sim, mas era algo suportável. Pelo drama que eu presenciava naquela sala das demais mães,  esperava coisa pior. Danilo nasceu de parto normal com 46 cm e 2.500 kg. Ele foi bem paparicado, era o 1º neto paterno e o 1º neto materno do sexo masculino.

Não fiquei traumatizada com o parto, o pessoal exagera nos comentários. Cada experiência é única e por isso não podemos transferir nossos medos a outrem. Mesmo assim, não planejei outro filho em seguida, queria esperar o Danilo crescer um pouco mais. Acontece que Deus tinha traçado um plano secreto o qual chegou ao meu conhecimento somente depois de quatro meses de gestação.

Apesar do susto, encarei e fiz todo o procedimento necessário. A segunda gestação não foi diferente da primeira, com exceção de um detalhe: nessa eu fiquei mais redonda. O rompimento da bolsa ocorreu igual da outra vez: eu acordei molhada pelo líquido amniótico, arrumamos a mala e partimos rumo ao hospital por volta das 7:00 da manhã no dia 09/03/1986. Meu marido acreditou que iria demorar como da outra vez, deixou-me lá e voltou para casa. Entretanto, mal sabia ele que a mocinha que, por pouco, não nascera no Dia da Mulher, gostava de surpreender. Patrícia nasceu de parto normal dali a minutos, como num passe de mágica. A pequena princesa mediu 46 cm e pesou 2,300 kg.

Novamente toda a família foi comemorar o milagre da vida, a chegada de mais um ser  que muito nos acrescentou e que, junto com o Danilo, pintaram as nossas telas de todas as cores com a magia e o encantamento que somente as crianças possuem...
(Zizi Cassemiro - mãe coruja do Danilo e da Patrícia)

10 comentários:

  1. Realmente você tocou em um ângulo curioso: somos mães de várias pessoas, sem necessariamente dar à luz, parir. Seria esse também um exemplo de parto "normal", no sentido de "natural"?!? Talvez, né??? E ainda mais na profissão que escolhemos... Quantos "filhos" postiços espalhados por aí... e fora os netos, que não são paridos, mas não deixam de ser filhos também. Espero um dia poder experimentar essa "maternidade por tabela". (risos)

    Seu texto, como sempre, lindo, rico em detalhes e mais rico ainda em emoção! Adoro! Obrigada por compartilhar sua experiência conosco, aqui!

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  2. Obrigada, Dequinha! Ainda mais sendo professora, temos um lado maternal que muitas vezes fala mais alto do que o lado racional do professor. São tantos partos, tantas chegadas, poucas idas... Mas sempre digo que curto mais o trajeto!

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    1. Eu digo que seria muito mais fácil se a gente fosse só professora em vez de querer ser meio mãe, aquela que se importa, que dá bronca, que, se bobear, quer dar colo e até colocar de castigo! Se pegar muita intimidade e não me policiar até faço isso... e logo depois sou exonerada, claro! (risos)

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  3. Que lindo texto!! Que perfeição nos detalhes, ... esqueci de relatar que o meu filho mais velho nasceu com 4.200 e o mais novo com 3.900 rsrs ... mas voltando ao texto, adorei o seu relato, além das emoções vividas tão merecidamente tranquilas, adorei a riqueza dos detalhes, você escreve divinamente bem! Parabéns!!!

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Obrigada, Maria José, pela gentileza :)). Os seus filhos nasceram fortes, heim? Os meus pesavam pouco, até me perguntaram se eu era fumante. Nunca fumei. Depois eles engordaram e cresceram bem....Danilo tem 1,85, a Paty 1,58 quase como eu :))

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  5. Amiga, você foi uma privilegiada, como minha mãe. Ela também não sabe o que é dor de parto. Meu irmão quase nasceu na porta do hospital e eu nasci em casa, não deu tempo. Amo seus textos ! Você escreve divinamente !

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    1. Nunca sabemos como será a hora H, mas é um risco, afinal filho sempre vale a pena. Eu não posso dizer que sofri muitas dores, apenas as contrações normais, chatinhas mas suportáveis. Obrigada por gostar dos meus escritos e pelos elogios, que muito me motiva!

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  6. Zizi, temos histórias parecidas! Eu também fui pega de surpresa pela médica quando ela disse que eu estava em trabalho de parto. Foi um misto de desespero e alegria, já que eu estava de 34 semanas apenas. Enfim, deixei passar esse tema, mas acho que daria um belo texto.
    Não tão lindo quanto o seu! Amo seus escritos! Muita emoção envolvida!
    Beijos

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    1. É verdade! Quando fiquei sabendo a Paty já estava a caminho, meu Deus que correria para ajeitar as coisas... Com certeza seu texto seria cheio de emoções, como já comprovamos em temas variados, pois escreve muito bem e recheia com muito sentimento todas as letras. Obrigada pelas palavras cheias de ânimo;))

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