sábado, 11 de junho de 2016

De pirraça, eu entendo...



Na infância, segundo relatos, fui uma criança muito boazinha, carinhosa ao extremo, do tipo grudenta. Fui também muito, muito mimada. Esta última condição fazia com que eu emburrasse cada vez que a minha vontade não fosse feita. Não havia quem me fizesse sorrir até que eu me esquecesse da frustração. Até hoje sou imediatista. Quero tudo na hora, mas aprendi a viver com os "nãos" impostos pela vida e pelas circunstâncias.

O tempo passou e Deus me deu um lindo filho.

Renan nunca foi de me pedir as coisas, nem de pirraçar. Eu sentia dificuldade para presenteá-lo, pois não demonstrava interesse por quase nada. Olhava para as coisas, dizia "legal" e saía andando. A sua primeira pirraça foi em torno dos quatro ou cinco anos, na hora de dormir. 

Todas as noites, fazíamos uma pequena oração: "Papai do Céu, abençoe o nosso sonhinho. Papai do Céu, abençoe o soninho da nossa família e de todo mundo que é nosso amigo. Amém". Certa vez, o Renan se recusou a dormir e eu não quis negociar.

Determinei que fôssemos rezar. Ciente de que a nossa oração era a última atividade do dia, num ato de coragem e determinação, o pequeno pegou a palavra e o pedido dele assim se fez: "Papai do Céu, abençoe o SEU soninho, porque eu não vou dormir, dormir é muito ruim!" Ah, que saudade dessa pirracinha... Lembro -me de que ele dormiu e eu fiquei rindo!

Como nada poderia ser tão calmo, Deus me deu uma filha linda.

Com a Maitê, a história foi mais radical. Sabe aquela criança que você vê se jogando no chão ou gritando quando não é atendida? Aquela mesma que você culpa, mentalmente, os pais pela negligência na educação e imposição de limites. Então, Deus me fez pagar a língua e os pensamentos. Agora, um pouco mais velha, os ataques em público vêm diminuindo, mas ainda acontecem.

Por conta do atraso na fala, a pequenina não consegue se comunicar como as outras crianças, então a pirraça acaba sendo o caminho mais curto para que consiga demonstrar a sua insatisfação. Eu aprendi a sofrer menos e ignorar a plateia. O importante é que ela, de um jeito ou de outro, se faça entender.

Seja no meu bico de criança, na oração rebelde do Renan ou nas vezes em que a Maitê se jogou no chão, o que restou de valioso foi a saudade deixada pelo tempo.E esta é tão grande que chega a doer. 

Precisamos pensar que a pirraça é, também, uma forma de mostrarmos o que queremos. Acredito que, apesar de todo o atraso no desenvolvimento da fala, Maitê se fez ouvir muito mais do que o Renan. Será que ele não sofreu com todo o conformismo e silêncio? Quem disse que devemos ficar calados?

Ai, ai... Que viagem! Depois de ir tão longe nos meus pensamentos, cheguei à conclusão de que a maior pirraça da vida é a feita pelo tempo. Ele passa e é implacável na decisão de não voltar e, dessa forma, segue  nos impedindo de consertar uma cena, pirraçar menos ou mesmo de fazer uma vontade e evitar o embate.

É, tempo, só você mesmo para me fazer calar.

                                                               (Mônica Jogas - mãe do rebelde Renan e da pirracenta Maitê)

12 comentários:

  1. Texto gostoso de ler ! Tem razão, a pirraça é uma forma de comunicação, quando não são entendidos. Ainda bem que vc com a sabedoria de mãe soube lidar com os dois, que são tão diferentes. bj

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  2. Sempre aprendendo ... Cada dia , um ensinamento . Obrigada por comentar!

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  3. Que lindos e fofos!
    Cada pessoa tem sua forma de manifestar-se: alguns mais radicais como sua filha que se jogava no chão e a minha que perdia o ar e quase desmaiava. O que fazer? Não adianta querer resolver isso em um dia porque é impossível. Estamos lidando com personalidades diferentes da nossa, tanto é que os demais filhos agem diferentes! (Ainda bem...né?)
    Palpites não faltam, mas ninguém quer estar no lugar das mães que sofrem pirraças dos filhos...
    A sabedoria das mães está justamente nesse jogo de cintura em lidar de forma diferente para cada caso. Compreensão e solução andam de mãos dadas e só a mãe possui esse poder. Os demais são apenas espectadores...
    Adorei sua história, impossível não se emocionar com as palavras tão sinceras e inocentes do Renam e não rir com o teatro da maitê ( de repente ela gosta de representar kkk). Ninguém substitui um relato de mãe porque ele é formado de emoção e amor verdadeiros! Amei seu relato e fiquei muito encantada com sua reflexão acerca do tempo: que ele é a pirraça maior porque não retorna e impede o conserto dos fatos: pura verdade isso! Mas talvez o tempo use esse artifício para ensinar que os erros nos fazem aprender mais que os acertos.
    Obrigada por compartilhar esses momentos marcantes e por eternizá-los aqui junto ao nosso também.

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  4. Obrigada, Zizi!! Acertou em cheio quando falou do teatro da Maitê. Ela é uma figurinha !!! Valeu pelo comentário !!

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  5. Mônica que lindo texto!!! Que bom que você nos trouxe esse relato tão doce sobre as pirraças, esse tema tão gostoso, pois é uma delícia ler sobre a pirraça dos pequenos! A gente se diverte mesmo, como se diz por ai, a gente ri pra não chorar kkkkkk

    Muito grata por você nos proporcionar tão docemente a alegria desses momentos tão marcantes! Tão encantadores!!!

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    1. É isso mesmo, acaba -se rindo para não chorar.... Kkkk adorei !
      Obrigada por comentar !

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  6. Aprendi q o filho q se sonha não é aquele q nasce...
    A Nathália, uma mocinha, foi a q Deus me enviou para me dizer q eu precisava aprender o q é tolerância, afinal somos diferentes pacas, mas com posições bem definidas.
    Lucas veio para lapidar essa tolerância. Ele era o q berrava, se jogava no chão, falava sem filtro. Vc nos conhece, sabe q não estou exagerando.
    Tratei os dois da msm forma, cm os msms valores.
    Julga quem nunca aprendeu a ser, quem nunca se oportunizou, quem decidiu por muitos. Julga quem não tem visão ampla, quem tem parâmetros fechados, rígidos. Julga msm quem não quer aprender ou conhecer. Julga quem não permite desenvolvimento de opinião. Julga quem não quer relativizar.
    Aprendemos um bocado cm mães qdo nos propormos a isso. Eu continuo aprendendo.
    Cm sempre percebo q a caneta é íntima dos nossos sentimentos na sua mao

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  7. Muito bom!!!
    Hehehehehe

    De fato o tempo é o mais pirracento de todos. rs

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    1. E não é que é mesmo? O sujeito é resistente !

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  8. Adoro os seus textos! Que gracinha e doce essa pirracinha relatada do Renan! Amei! Merece um capítulo à parte no seu livro, com certeza! Comovente... A pureza e a sinceridade das crianças me deixam encantada, aliás, encantadíssima!

    Eu puxei mais à Maitê... Até hoje sou meio bocuda mesmo e mando os meus recados... doa em quem doer... cometo meus excessos... e posso até me arrepender do que falei, mas nunca do que não falei. Acho que a gente ganha mais, depois. Na hora a gente explode e vira alvo, mas depois se alivia pacas, ao contrário de quem guardou.

    Bom demais mesmo relembrarmos de tudo, e até as pirraças que nos tiraram do sério na hora, depois viram motivo de risos... de análise... de saudade... E que a gente sempre observe esse arteiro menino chamado TEMPO e ele não dá pra gente colocar de castigo, nem pra pensar, nem fazer nada, a não ser aceitar. Beijos.

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    1. As emoções aqui são intensas... Rs
      Obrigada por sempre comentar com carinho!
      Beijos

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    2. Não há de quê! O prazer é todo meu! Adoro, de verdade! Fico muito feliz quando você consegue aparecer! Sei da sua correria! Beijos.

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