sábado, 9 de julho de 2016

Ela é a síntese das sensações


Voz aveludada e colorida, toque meigo e balsâmico, olhar doce e brilhante... Sons, cheiros, sabores e cores se mesclam dando origem a um ser de alma perfumada que representa a síntese das sensações, uma espécie de sinestesia personificada.

Minha mãe vive em minhas lembranças e revive nas impressões sensoriais que falam em forma de saudades. Quando ela partiu,  foi muito difícil se desfazer dos seus pertences porque cada um deles traduzia, de certa forma, parte de sua personalidade.

Ela não tinha, por exemplo, uma preferência por um determinado perfume. Sua penteadeira era preenchida por fragrâncias diversas e uma infinidade de cremes  que  utilizava diariamente, pois  era vaidosa e gostava de estar sempre cheirosa e bonita. O aroma perfumado da minha mãe difundiu em cada cômodo e no interior daqueles móveis,  cujas gavetas, tão cheias e bem organizadas, exalavam o cheiro de uma vida.

A cozinha,  aquele santuário de  sabores e de aromas, guardou para sempre o segredo do tempero dela que eu associo ao enorme prazer em preparar quaisquer refeições: do simples cafezinho às ocasiões festivas com mesas fartas e variadas. Além do paladar singular com gosto de “quero mais”, um cheiro irresistível daquela comida invadia a rua e contagiava  vizinhos e transeuntes.

Tantos outros cheiros participaram dos seus 75  anos de existência:

O cheiro da alegria nos sorrisos e nas risadas desmedidas com histórias hilárias ou em brincadeiras carinhosas com a família e amigos. O cheiro suave e doce do carinho materno nos momentos de colo, ombro ou cafuné sempre disponíveis, mesmo em meio a dez netos... O cheiro duradouro e exemplar da parceria matrimonial que durou cinco décadas e, com efeito, perpetuou-se nos descendentes. O cheiro persistente que não sucumbiu às dificuldades da vida porque seu otimismo falou mais alto e pode, assim,  presenciar várias vitórias. O cheiro convicto da fé em Deus que fertilizou os brotos e edificou suas sementes, garantindo a propagação dos bons ensinamentos...

Entretanto, a frágil saúde, vinculada ao irredutível relógio do tempo, possui limitações e não hesitou em alterar o alegre cheiro da vida pelo triste odor da partida. Então, ela foi para outro plano, provavelmente descobrir novas fragrâncias...

(Zizi Cassemiro – filha da cheirosa e inesquecível Dona Raimunda; 
mãe do Danilo e da Patrícia; avó do Gabriel e do Johnny)

6 comentários:

  1. Que lindas e inesquecíveis sensações!! Somente um amor tão imenso é capaz de compreender essas dimensões sensoriais, essas histórias tão encantadoras, tão inexplicáveis!!! Somente quando temos o privilégio da maternidade é que compreendemos o cheiro suave e doce do carinho materno, como bem você disse!
    A sua mãezinha se foi, mas com certeza cumpriu a sua missão com fé e determinação!! Parabéns pela linda homenagem!! Fiquei emocionada com suas encantadoras palavras! Hoje a minha mãe está completando 75 ... está comemorando em grande estilo lá no RN, pena que estou tão longe!! Mas a vida é isso!!
    Obrigada por compartilhar com a gente tão doce texto!! Amei!!!

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    1. Obrigada, Maria José pela atenção e carinho que sempre acompanham seus textos e comentários dos nossos escritos.
      Eu cheguei a uma conclusão que, independente da idade, a partida da nossa mãe é sempre cedo. Vejo pessoas ficarem ao lado dos pais muito mais tempo que eu e se desmontam quando se vão. Por que elas não são eternas? De certa forma são sim, pelo menos em nossos corações.
      Tão bom poder acompanhar o aniversário delas!! Eu, morava perto e sempre fazia um bolo para homenagear a melhor mulher que eu conhecia. Eu não posso me queixar, estive perto dela o tempo todo. Eu a via toda semana, embora morássemos em cidades vizinhas, ou eu ia para a casa dela, ou a buscava para a minha. Meus pais significavam muito para mim e falar sobre eles deixa-me emocionada, por isso fiz várias pausas quando estava escrevendo o texto. Tinha tanta coisa para falar, saiu parte, mas consegui finalizar o texto.

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  2. Lindíssimo e emocionante o seu texto, Zizi, só pra variar... rs rs rs

    Ao contrário da sua mãe, a minha não é nada vaidosa. Eu mesma sou só o básico também, mas nela é menos ainda, nada, praticamente, até para pintar o cabelo e as unhas eu tenho que insistir muito, e se deixar repete a mesma roupa dia sim, dia não, só pra poder secar... mesmo tendo tantas outras... Até o creme pra passar nas pernas e braços, que ressecam, ela deixa pra lá.

    Então o cheiro da minha é de sabão em pó (ama lavar roupa), de comidas (porque ama fogão!), de café (que ela adora e eu odeio), e até mesmo de suor (que faz com que eu me lembre de algo que ela ama: ir pro quintal e varrer, varrer, varrer, mesmo debaixo de um sol escaldante!).

    Que legal que você pôde aproveitar bastante sua mãe (e todos os cheiros associados a ela) e que delícia de lembranças... A partida não associo a odor... e sim a um aroma diferente que ainda desconhecemos, limitados que somos... mas um dia chegaremos lá... e entenderemos tudo, sinestesicamente, aposto! Um beijo!

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    1. Obrigada, Dequinha por sempre deixar carinho e estímulo contido nas suas palavras.
      Minha mã era uma pessoa muito amada por todos. Nunca conheço pessoa que tenha o que falar dela. Tinha o coração infinito e nele cabiam todos....
      Eu até acho que deveria falar sobre ela com muita alegria, porque ela era uma pessoa super animada, ria muito, mas falta-me um pedaço que ela levou e eu sinto muita falta daquela baixinha.
      Ela me dava muitas broncas dizendo que meu cabelo vivia arrepiado, parecia que eu não tinha pente, o que na verdade, ela não estava totalmente enganada: meu cabelo é arrepiado mesmo, penteado ou não e eu não tenho muito saco para progressiva no cabelo. Já tenho pouco cavelo, essas progressivas deixam com menos volume...daí pareço a Maga Patalógica do Tio PAtinhas kkkkkkk
      Minha mãe é a minha melhor referência como mulher, não sou igual a ela, mas faço um esforço para ser a melhor pessoa que posso... Embora não agrade a alguns...


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  3. Elizabete Sampaio10 de julho de 2016 10:40

    Lindo texto, confesso que chorei ao ler...Tão emocionante, diferente de você sempre tive uma relação conturbada com minha mãe,mas, agora estamos juntas tentando reconstruir nossa história.Confesso que não é fácil, foram anos de afastamento emocional, perdemos tantas coisas...A vida é um eterno aprendizado, e sem dúvida a cada dia descobrimos que sempre há tempo para recomeçar.

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    1. Obrigada, Elizabete pelas palavras carinhosas.
      Em cada lar um contexto, só mesmo a pessoa sabe exatamente como os sentimentos afetam. No caso de mãe é o mais forte. Ou se dando bem ou não por algum motivo, a figura da mãe tem uma uma importância enorme em nossa vida. Nem sempre as águas escorrem por caminhos sem pedras. Mas cada um tem seu tempo de pensar , repensar, começar ou recomeçar um vínculo. Nós, como mães, fazemos sempre o melhor para nossos filhos, pelo menos acreditamos nisso. Penso que outras mães também, dentro do que elas consideram que seja o certo.
      Eu também costumo chorar com textos, com filmes, com músicas, com histórias alheias....sou uma manteiga derretida.... Não sei se isso é bom ou ruim, mas sei que há pessoas que se aproveitam dessa sensibilidade aguçada para me magoar.

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