Mostrando postagens com marcador Irene Sena. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Irene Sena. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Ser criança...


Ser Criança

Ser criança é bom demais
despreocupar com tudo que se faz
dar um pulo, um grito e uma risada
levar a vida bem vivida e bem amada
ter uma rua e um parque prá brincar
o dia inteiro sem ter hora de parar
depois dormir, sonhar com a fantasia
e acordar num mundo cheio de alegria
ter uma escola e uma casa prá morar
boa saúde prá brincar e prá correr
ter amor e carinho todo dia
e um mundo lindo e limpo prá poder viver

Canção Das Brincadeiras II

Quem quer brincar de roda
Jogar peteca ou dançar quadrilha
Brincar de pique, pega-pega, esconde-
Esconde
Amarelinha é uma maravilha

Agora me diga quem foi que bolou
O diabolô, biboquê e iô-iô
Tem cobra cega e gata pintada
Forninho de bolo, futebol e queimada

Quem quer brincar de esconder
De rebolar com bambolê
Eu vou tirar na sorte o capitão
Depois vou pular corda e jogar pião

Bolinha de gude é tão bom jogar
Tá quente tá frio, ninguém vai achar
Guarda meu anelinho bem guardadinho
Chicotinho queimado não vai bater "ni mim"



O Menino e o Mar

Menino vem brincar no mar
Ô mar! vem lavar pé de menino

Eu vi as ondas brincando de pega-pega
Levar as águas do riacho cristalino
Eu vi menino vir brincar no mar
Ô mar! vem lavar pé de menino

As gaivotas vão fazendo suas rondas
O sol levanta o vento leste me incendeia
No chão da praia vou guardar a minha raia
E construir o seu castelo de areia


Essas canções são de Rubinho do Vale, um menino-poeta-cantador de minha região.  Quando Rubinho canta, todo vira criança. Para todas crianças do Brasil!

 (Irene Sena - Mãe da Sâmia)

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Detesto...

Minha filha é muito madura, sempre foi e às vezes briga comigo... Sniff... Fico muito triste quando ela faz isso. Eu tenho coração de manteiga e choro muito, choro até vendo beijo de novela. Eu queria muito não errar, não brigar com ela, nem que ela brigasse comigo. Detesto quando isso acontece. Acho que o fato de brigarmos se deve ao fato de ela ter o gênio mais forte que o meu. Aliás, ela briga comigo, eu só choro, choro, choro... E vem aquele nó na garganta que não sobe e nem desce, então eu me calo, me fecho, para não me magoar, para não magoá-la. Como é brava a minha broa! Coração fica partido, em frangalhos, mas meu amor por ela cura tudo, tudo passa, tudo desfaz, bem depressa cicatriza. Em meu aprendizado diário de ser mãe, aprendi que muitas vezes é preciso calar. Nunca sei se estou agindo certo, mas me calo. Mas, graças a Deus, passa logo e logo voltamos a nos dar bem como sempre.
Outra coisa que detesto é ficar longe dela. Dóiiiiiii... mas é a vida, ela precisa crescer, fazer carreira, ficar independente. E ela é corajosa, teve a coragem que nunca tive. Alçou voo, bateu asas. Isso eu gosto. Tento me lembrar de outras coisas mais. Não consigo. Ser mãe é não detestar. É aceitar. Simples assim.
(Irene Sena - mãe da Sâmia)

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Adorooooo!


É difícil escolher algo que nossos filhos fizeram ou façam e não tenhamos adorado. Gosto das atitudes maduras de minha filha, muitas vezes é mais madura que eu... Ela tem um gênio forte, é uma pimentinha, mas adoro o jeitinho de menina dela.

Ela é uma jóia preciosa que Deus me deu para cuidar, ainda que muitas vezes eu não saiba fazer isso direito. É um amor que não sei explicar,  nem mensurar, simplesmente sinto e vivo. Sinto-me especial por tê-la como minha filha, me alegrando, me ensinando o que realmente é amar.

Filha, que Deus abençoe o seu crescimento como mulher, a sua saúde, a sua vida, as suas escolhas e os seus caminhos.

(Irene Sena - mãe da Sâmia)

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Pediatra?


Quando a Sâmia nasceu, aqui em minha cidade mal havia médico. Quando o médico que fez o meu parto mudou-se para cá, só havia dois. Fui ao médico poucas vezes, durante minha gravidez. Não havia o tal do ultrassom, tampouco o teste do pezinho, muito menos pediatra. Mas tenho especial carinho por Dr. José Antônio Dias, clínico geral, uma pessoa boníssima, que era o faz tudo do Hospital de Minas Novas e se desdobrava para dar conta de tudo e de todos, ao lado de outro médico, recém-chegado, chamado Dr. Rafles.  Eram adorados por toda a cidade.










Dr. Zé Antônio fez o meu parto complicado, ele não sabia se cuidava de mim, com a pressão nas alturas, ou se consolava meu tio Júlio e minhas irmãs que choravam sem parar. Tornou-se o médico da Sâmia. Infelizmente ele não mora mais aqui, mas volta de vez em quando, para matar as saudades de suas crianças, como ele diz. Lembro-me de que um dia, ele me parou na rua e disse: “Quando a Sâmia era criança, eu a vi quase todos os meses, agora que ela cresceu nem liga mais para mim. Diga para ela ir ver o baixinho que a trouxe ao mundo...” E era sempre assim: carinhoso, falante, alegre, mais amigo que médico. Ele mudou-se de Minas Novas há mais de dez anos, mas não há quem não tenha uma história engraçada, triste, alegre ou comovente para contar sobre o Dr. Zé Antônio.
(Irene Sena - mãe da Sâmia)

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Eu tenho tanto pra lhe falar...



"Eu tenho tanto pra lhe falar
Mas com palavras não sei dizer
Como é grande o meu amor por você..."

Não sei explicar o que senti quando vi minha filha pela primeira vez, mas confesso que tive medo. Medo de não dar conta de cuidar, de deixá-la cair, medo de dar o primeiro banho, medo, enfim. Um enorme medo de não ser a mãe que ela precisava. Mas eu vi  aquela carinha linda, redondinha, feito uma broa, a minha broa, e o medo deu lugar à certeza de um amor maior que o mar, maior que o mundo. E eu ousei chamá-la de filha. MINHA FILHA. E desde que ela nasceu não tenho um momento mágico. Tenho muitos. Mas destaco aqui o mais mágico e sublime de todos: o momento em que colocaram minha filha em meus braços, no dia em que ela nasceu.

Hoje, quero pedir perdão à minha filha pelos meus muitos silêncios, pelas broncas tantas que já dei, por descontar nela muitas vezes o que sinto, por esse meu desabafo todo, hoje, aqui. Mas quero que ela saiba que essa mãe  a ama incondicionalmente, verdadeiramente e para sempre. E sempre tenho muito a dizer a ela, mas as palavras sempre somem. Aí, mais uma vez, invoco Quintana e digo: Filha, “Eu te amo a perder de vista...”
(Irene Sena - mãe da Sâmia)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Mãe e Filha...

                             
Mãe e filha

Linda, muito mais que linda
Essa menina agora
Linda, muito mais ainda
A se descobrir...
Através da voz, da fauna e da flora
Na misteriosa forma de crescer
Tu és a mãe e és a filha
Desse eterno renascer

Minha doce companhia,
Pela vida afora
Te desejo só um guia
Nessa trajetória
Achar o teu espaço
Abrir o braço
Para aquele que vier depois
Fazendo jus, a ser feliz,
Brilhante como é o sol
O que reluz, está em ti,
O Amor

(Zizi Possi)

A minha saída do hospital foi marcada por alegrias e tristezas, mas qualquer tristeza foi superada por toda alegria do mundo: minha filha! Inicio esse post com a música “Mãe e Filha” de Zizi Possi (que fala lindamente da relação entre mãe e filha),  mas ao mesmo tempo me vem à mente  bela canção "Filho" de Milton Nascimento, que maravilhosamente nos diz: “Toda vida existe pra iluminar / O caminho de outras vidas / Que a gente encontrar / Homem algum será deserto ou ilha / Como não pode o rio negar o mar...”

E saí do hospital com a certeza de que aquele pequeno ser iluminaria não só a minha vida, mas a de toda gente que cruzasse seu caminho. E mais ainda, tive a certeza de eu jamais estaria só, que nunca eu seria deserto ou ilha, pois tenho a minha filha, meu norte, meu porto seguro, razão de minha luta, motivo maior para o prosseguimento de minha caminhada. Sem ela, extinguir-se-iam as razões, cairiam por terra os motivos.

Minha broa já abriu as portas do navio, ganhou o mundo, mais ainda somos um par de jarros, como eu sempre disse: “cara de uma, focinho da outra”, quase iguais na aparência, gêmeas na essência..., mas ela nunca me deixou só, nunca estaremos longe uma da outra, desde o seu nascimento até hoje, a cada dia que passa me descubro nela, me crio, me recrio e me reinvento, por amor, por minha filha!

(Irene Sena - mãe da Sâmia)

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

AMA...mentação!


AMAmentar. Acredito ser esse um dos maiores atos de amor por nossos filhos e filhas. A Sâmia mamou e mamou muito: mais de dois anos e meio. E quando parou de mamar, não quis nem saber de mamadeira, passou direto para a caneca. Acho que é por isso que ela adora canecas... rs Tem uma coleção delas.

A AMAmentação (tem amor até no nome) é um momento único, ímpar, que deveríamos eternizar, pois faz de nós, mulheres, seres poderosos. Esse momento de contato com nossos filhos e filhos nos engrandece e nos torna únicas. O leite é o alimento ideal para matar a sede e saciar a fome do bebê. Amamentei minha filha o máximo que consegui e sei que o meu leite contribuiu para  que ela crescesse com saúde e protegida contra as doenças. Por outro lado, o ato de amamentar cria um forte vínculo entre mãe e filho. É a segurança que a criança busca, inconscientemente. Em nosso peito, nossos meninos e meninas encontram tudo o que precisam, fortalecendo corpo e alma.


“O futuro do Brasil está nas crianças, já dizia o escritor Monteiro Lobato. Além de bem alimentada, elas deveriam encontrar também escolas de tempo integral e uma formação profissional que proporcione a segurança financeira necessária para a constituição de uma família. A sociedade tem de estar voltada para evitar a perda das crianças para o crime.”
(Irene Sena - mãe da Sâmia)

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

“Eu te amo a perder de vista...”



“Há dias que eu não sei o que me passa
Eu abro meu Neruda e apago o sol
Misturo poesia com cachaça
E acabo discutindo futebol...”

Há dias em que estou meio doidinha, amanheci com meu avô na garupa, de ovo virado ou de 15 para 16, como diz minha mãe. Dá aquela vontade de fazer tudo e nada, misturam-se sentimentos contraditórios. Tenho fama de durona, mas coração de manteiga... E, não muito raro, fico meio perdida em devaneios, meu senso Dom Quixote vai a mil, enquanto um Sancho Pança me puxa pelo pé e insiste em me prender ao  mundo dos reles mortais. Mas dizem, de poeta e louco todo mundo tem um pouco. E uma vontade de não sei quê e ir não sei pra onde me invade e eu me fecho e me calo... Se desmorono ou se edifico, se permaneço ou me desfaço, — não sei, não sei. Não sei se fico ou passo.” Mas sei que saudade é moinho de vento (por maior que seja, precisamos enfrentá-la...).

Hoje, por exemplo, estou com tanta saudade de minha broa... E aqui estou, em um daqueles meus dias de Dom Quixote, sem saber o que me passa, tentando escrever esse post, sem saber direito sobre o que escrever, entre o tema dessa semana passada e o dessa semana. Se ela estivesse aqui diria: Juízo, mãe! (Epa! Será ela meu Sancho Pança?). Quero falar sobre o muito que a Sâmia tem de mim e acho que somos iguais na escrita, na fala, nos “pés pro mato”, na alegria, na tristeza, nos gostos e desgostos, nos jeitos e trejeitos, na vida, mas preciso também falar sobre o tema dessa semana. Sobre o que é mesmo? Volta, Quixote! Diz-me meu Sancho Pança, chamando-me de volta à realidade. Ah, sim! Um momento mágico. Um? Não. Muitos. Magia maior é ser Dom Quixote que enfrenta todos os moinhos de vento do mundo pela cria. Mas ainda persiste a necessidade de falar de um momento mágico. Eu quero, eu preciso. Invoco meu Dom Quixote e meu Sancho Pança e eles vêm em meu auxílio. Achei! Achei o mais mágico de todos: o momento em que colocaram minha filha em meus braços, no dia em que ela nasceu. Aí, invoco Quintana e digo: Filha, “Eu te amo a perder de vista...”
(Irene Sena - mãe da Sâmia)

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Da arte de educar em uma casa só de mulheres...

"Educar é mostrar a vida a quem ainda não a viu..."

Minha filha cresceu em uma casa de muitas mulheres (somos sete). Como diz Gabriela, minha sobrinha: somos a casa das sete mulheres. Educar não é tarefa fácil, mas procurei educar minha filha de acordo com os rígidos princípios de uma família tradicional mineira, aprendidos com meus pais, principalmente com meu pai, ainda que tenha convivido pouco com ele. Perdi meu pai aos onze anos de idade, mas guardo dele boas recordações. Era severo, no entanto soube nos educar e bem. Em sua simplicidade deu-nos a medida exata de amor e respeito ao próximo, ensinou-nos, mesmo semi-analfabeto, a dar valor aos livros e aos estudos. Era um homem de poucas palavras, mas sabia como ninguém a força delas, tanto é que nos dava livros de presente. Minha mãe é uma guerreira, em todos os sentidos, com o falecimento de meu pai, ela se fez presente em todos os momentos de nossas vidas, mesmo quando a partida do meu irmão lhe roubou toda a alegria, ela se fez forte por nós. E essa fortaleza advinda de minha mãe, sempre procurei transmitir à minha filha. E nessa casa de seis mulheres (sete com a Sâmia) todas fortes, geniosas, batalhadoras, guerreiras, sonhadoras, mas com pés fincados na realidade agreste do velho Jequi, cada uma soube a seu modo me ajudar na difícil arte de educar. Quem tem filho criado com os avós ou perto deles, sabe que 'casa de vó é sempre dia de domingo'... rs Posso dizer que minha filha tem muitas mães. E minha filha é assim, desde cedo, uma “senhorinha levada”, que muito herdou das mulheres que me ajudaram a criá-la e a educá-la.

(Irene Sena - mãe da Sâmia)

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Deus tem força?


Quando penso em algo inesquecível em meio a tantos momentos passados com minha “broa”, vem-me à mente um acontecimento que marcou a vida da minha família: o falecimento do meu irmão, que era padrinho da Sâmia. Meu irmão faleceu em um acidente no dia 20 de abril de 1990, quando a Sâmia tinha 5 anos. A dor e a tristeza por essa perda afetou-a de tal modo, que ela até hoje se recusa a dizer o nome do tio e padrinho. Uma noite, aos sete anos, ela acordou agitada, chorando muito e perguntou-me: “Mãe, Deus tem força?” Como responder essa pergunta vinda de uma criança de sete anos? Eu só disse que sim e ela prontamente respondeu: “Eu não acho. Se Deus tivesse força, Ele parava os carros antes de bater.” Tentando entender os mistérios da pergunta e querendo encontrar uma resposta, quis saber se era por causa da morte do tio e ela mais uma vez, repetiu o que sempre repetia quando o assunto era esse: “Deixa pra lá, esse assunto me dá dor de barriga.” Mal sabia a minha menina que o que doía era a saudade que apertava o seu pequeno coração...
(Irene Sena - mãe da Sâmia)

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Palavras, palavras...

Palavras doem, ferem, machucam, fazer chorar e fazem rir... Tive uma semana de palavras doídas, sofridas, mas que precisam ser ditas, expostas, verbalizadas para rasgar a carne, ferir o peito e a alma, fazer sangrar, mas precisavam ser ditas. Para mim, não houve palavras, não consegui proferi-las, pois as lágrimas saíram aos borbotões, inacabadas, descontroladas, as palavras (as minhas) ficaram presas na garganta, mas as palavras que me foram ditas, essas sim, trespassaram-me o corpo e a alma. E o tema dessa semana é a primeira palavra... Qual foi mesmo a primeira palavra dita pela Sâmia? Mãe... seguida de uma imensidão delas, pela palavra e  da palavra vive minha filha. Falou aos nove meses e falou muito. Hoje ela sabe o valor e o poder da palavra mal dita, bem dita, mal pronunciada, bem pronunciada. E uso aqui todo o poder da palavra e pela palavra digo, não para o que os outros saibam, mas para que ela saiba: TE AMO, MINHA FILHA!
(Irene Sena, mãe da Sâmia)

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Travessura em rio cheio...

A Sâmia nunca me deu trabalho, sempre foi boazinha. Pelo menos até os quatro, quase cinco anos de idade. Eu explico. Minha cidade é ladeada por dois rios, o Fanado e o Bom Sucesso. O rio Fanado é um rio de médio porte, mas em época de chuvas, quando “inverna”, como diz o povo daqui, transborda. Era novembro de 1989, chovia muito e rio encantava e assombrava toda a cidade. Era muita água trazida pela enchente e a criançada toda queria ver aquele “mundaréu” d’água. Ela pediu para ir e eu disse que não e sosseguei. Os amiguinhos dela desceram a ladeira que “descamba” para o Fanado. Entrei em casa e me descuidei dela. Minutos depois, perguntei se alguém a havia visto, quando um moleque me disse: “Descambou para o Fanado”. E lá fui eu, debaixo de outra chuva que se anunciava. Lá do alto, avistei aquele pedacinho de gente, já com a pontinha do pé dentro d’água. Foi o maior perrengue da minha vida. Eu gritei o nome dela tão alto que acho que, da “barra à cabeceira” do rio, todo mundo ouviu. Ela colocou as mãozinhas na cintura e ficou lá me esperando, com uma carinha de anjo. Quanto mais eu descia, mais ladeira havia. Arranquei uma vara de cipó no caminho, desfolhei-a e subi ladeira acima, dando-lhe umas e outras “varadas” nas pernas. A danadinha nem chorou e ainda me disse que o rio estava lindo. Fiquei com a consciência pesada dias e dias, mas valeu a surra, depois disso, nunca mais precisei buscá-la na rua, muito menos às margens de um rio cheio.
(Irene Sena - mãe da Sâmia)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

"Cara de uma, focinho da outra"

Desde que a Sâmia nasceu é filha de peixe, só tem mãe. É a cara da mãe. Aqui na cidade, todo mundo acha que somos parecidas e de fato, somos. Não só na aparência, mas também na essência. “Cara de uma, focinho da outra..." (como diz o povo da minha terra). Transcrevo abaixo um post do blog dela, publicado em 07/04/2011. Alguém quer maior declaração de amor?

Eu já te falei de tudo, mas tudo isso é pouco,
diante do que sinto.


Além da cara que não há quem negue é a mesma, herdei dela o choro quieto e silencioso e as  cartas de amor and otherwise escritas, extensas e nunca enviadas. Herdei essa vontade de ser sabe Deus o quê e o falar muito o desnecessário e pouco, quase nada, o necessário. Herdei, e renego enquanto tento remendar o já feito, a mão pra fazer coisa errada. Herdei um sofrimento constante do qual ela não fala e eu não falo, mas que está aqui dentro e perturba. Herdei esse sentimentalismo exagerado que um dia encheu de poesia folhas e mais folhas de papel. Herdei um coração pra sempre partido e a sina de amar o perdido. Herdei "ilusões perdidas e sonhos inúteis..."* Ah, e o gosto por Fagner, pelas músicas que de tanto ouvir me trazem lembranças de coisas que não sei o que são. Tenho nem pra onde fugir. É aquela história: se correr o bicho pega, se ficar o bicho come. :-)
(Sâmia - filha da Irene)
[Fanatismo - Florbela Espanca e Raimundo Fagner]

segunda-feira, 20 de junho de 2011

O nascimento de minha luz

Parece que minhas histórias são sempre tristes, trágicas até. Passei nove meses, calada, sufocada, esperando minha filha chegar ao mundo, ao meu pequeno mundo. Tenho um amigo-irmão, um anjo chamado Domingos, que me acompanha pelos caminhos da vida, desde sempre. Eu só compartilhava minha dor com esse amigo. Foi ele quem me acompanhou ao hospital. Sofri dores intensas por três longos dias. Comecei a sentir as primeiras contrações no sábado e minha menina só chegou numa terça-feira de manhã. E lá estava meu fiel escudeiro, de câmera em punho, registrando tudo.

O médico, velho conhecido nosso, perguntou o que ele fazia ali, resposta imediata: “Sou o pai”. Cidade pequena, pouco mais de oito mil habitantes, todo mundo conhece todo mundo. Ao que o médico respondeu; “Pai nada, mas pode ficar.” E ele não arredou pé, ficou ali até a hora do parto, uma cesariana, necessária, pois não se podia esperar mais. Ela chegou e deu luz à minha vida, foi o nascimento da luz de minha vida. Eu havia dito antes que ela não tem um pai, tem sim: Domingos, que ela chama apenas de Mingo, o pai que nasceu junto com ela, na hora do parto. Quando questionada a respeito do pai, ela diz: “Quem tem um Mingo na vida, precisa de um pai para quê?”.
(Irene Sena)

Sâmia, minha broa!


A minha mocinha veio ao mundo em um dia vinte e seis de fevereiro, sem que eu soubesse que era uma menina. E eu nem tinha um nome para lhe dar. Intimamente guardava, sufocada, muitos nomes, mas devido a minha condição de mãe só, não ousava verbalizar um nome ou nomes. E ela chegou: linda, carinha redonda, gostosa, rosada, mas sem nome, era só minha broa...

Foi então que meu irmão (que morava em outra cidade) ligou-me e pediu que nós o esperássemos para dar um nome à pequenina. Ele queria ver a “carinha de broa” antes de lhe darmos um nome. E assim se passaram quinze dias, nesse período era só minha broa. Meu irmão, depois da morte de nosso pai, foi nosso esteio, nossa força nas horas difíceis. Era o homem da casa. E nós esperamos. Ele sempre conviveu com árabes e escolheu para ela um nome árabe: Sâmia. Era um nome estranho, pouco conhecido, todos estranharam, mas eu gostei. SÂMIA, cujo significado é OUSADIA, ESPÍRITO COMPETITIVO, INDEPENDÊNCIA, FORÇA DE VONTADE, ORIGINALIDADE (quem a conhece sabe que é ela é tudo isso e muito mais).

Quando meu irmão partiu para a celebração do banquete da vida eterna, ela tinha apenas cinco anos e do alto de sua determinação de menina quase mocinha, ela se fechou e recusava-se a aceitar aquele nome estranho e questionava só comigo o porquê de um nome tão exótico. Eu lhe dizia que Tio Wilton escolhera o nome dela, então ela se calava, pois depois da morte do tio, ela se recusava o dizer o nome dele. E eu sabia que minha broa sofria com isso. Chegou, porém, o dia da aceitação do nome. No dia em que ela foi prestar vestibular, ligou-me da porta da sala onde faria a prova e disse-me, às gargalhadas: “Mãe, Sâmia é nome de gente, na sala tem eu e mais umas vinte. ELE escolheu um nome lindo para mim.” Nessa hora, eu chorei e ri de alegria e sei que meu irmão, o padrinho dela, também ria, satisfeito pela alegria dela, pela aceitação do nome que ele escolhera, pois o sinto perto de nós, sempre, para sempre...
(Irene Sena)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Tal mãe, tal filha!

Tempo rei, absoluto e relativo. Senhor de todos os ritmos. Dimensão presente em todos os aspectos de nossas vidas. Tempo que nos traz lembranças de tempos idos e vividos, como as lembranças que nesse momento me vêm fracas, nebulosas, outras vivas e fortes... Por isso, acho que a minha história é única, diferente e igual a tantas outras, mas minha... Namorei um rapaz por seis longos anos. Fui precoce, comecei aos catorze. Aos vinte anos, descobri-me grávida e estava só. Ao saber da minha gravidez, o dito cujo, depois de propor que eu abortasse, simplesmente sumiu, desapareceu, escafedeu-me da minha vida. Continuou e continua morando na mesma cidade que eu, mas hoje, digo sem rancor e sem mágoas que só me lembro de que está vivo, quando o vejo, mas deixemos isso de lado e vamos ao que interessa...
Nasci em família tradicional, do Vale do Jequitinhonha, terra centenária, muito tradicionalista, fui educada à melhor moda mineira e aprendi desde cedo, que ter filho sem casar era “feio”. 
A chegada da minha “broa” se deu em um momento de dor, sofrimento e desilusão, mas por ela enfrentei e enfrentarei o mundo... Foram nove meses de uma angústia sofrida, calada. Eu nada podia fazer, nada podia falar, mas a minha dor transformou-me, deu-me mais, infinitamente mais força. Eu precisava, por mim, por ela.  Fui ao médico algumas poucas vezes, na época não havia ultrassom e eu só conheci a minha pequenina no dia em que ela chegou: 26 de fevereiro de 1985. Quando vi aquela carinha assustei-me, tive medo, um medo que durou uma fração de segundo. O medo transformou-se em AMOR e em CERTEZA: era a verdadeira FILHA DA MÃE. Só se parecia comigo. Ainda hoje, ela só se parece comigo, em tudo: “cara de uma, focinho da outra”: TAL MÃE, TAL FILHA. E eu fui e sou “PÃE”. Quantas vezes me debrucei sobre o berço dela e cantei: “Menininha não cresça mais não, fique pequenininha na minha canção...”. Ela CRESCEU, sem medo da vida, das desilusões e do bicho-papão. Hoje a minha “senhorinha levada” tem 26 anos e me ensina muito mais do que eu a ela. Aprendemos, juntas, a tecer nosso destino, imersas na imensa teia da vida, com vários fios, cores, desenhos e  incorporando a nossa identidade “vamos bordando a nossa vida, sem conhecer por inteiro o risco”... Ela cuida tanto de mim, que às vezes é difícil saber quem é a mãe, quem é a filha. E precisa?
(Por Irene Sena -- mãe da Sâmia)